quinta-feira, 7 de julho de 2016
domingo, 5 de abril de 2015
P. Manuel Gomes Dias
Um limiano para a eternidade
Em
Santa Maria Madalena, onde viviam os seus pais – António Dias, que durante
muitos anos cuidou com esmero do jardim que embelezava essa estância
panorâmica, e sua esposa Maria Gomes –, nasceu Manuel Gomes Dias, a 4 de Maio
de 1933, e, com os seus numerosos irmãos, aí passou a infância, entre a verdura
dos arbustos e os canteiros de flores. O local onde ocorreu o nascimento e
decorreram os mais tenros anos do pequeno Manuel pode tomar-se como emblemático
da sua maneira de ser e da sua vida futura: amplo panorama, larga visão, alguma
elevação, ainda que moderada e sem arroubos, muito sol, uma paisagem digna de
ser amada…
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| No último ano de residência em Ponte de Lima |
Fez a instrução primária na vila de Ponte de Lima;
frequentou a secção masculina do Colégio D. Maria Pia e passou nas provas de
admissão aos estudos liceais.
Em entrevista concedida a um órgão da imprensa local,
referiu que ainda pensou seguir o curso de medicina, mas que, sendo essa
hipótese na altura inviável, decidiu, sem hesitar, matricular-se no Seminário
Diocesano de Braga, que começou a frequentar em 1946. Aí foi reconhecido como
bom aluno e, em anos mais avançados, despertou a atenção dos seus superiores
pela sua queda ou, como terá dito o Cónego Aguiar Barreiros, pelo seu “faro”
para os bens do património artístico e arqueológico. Com o mesmo Cónego Aguiar
Barreiros e com o Cónego Luciano Afonso dos Santos, colaborou, ainda
seminarista, na organização de algumas exposições realizadas em Braga. Por
ocasião de algumas dessas exposições, travou conhecimento com José Rosa de
Araújo, de quem se viria a tornar grande amigo e companheiro em lides de
reconhecimento arqueológico e de recolha etnográfica, na Ribeira Lima.
Ordenado sacerdote em 15 de Agosto de 1958, pelo
Arcebispo D. António Martins Júnior, nesse ano foi colocado como pároco na
remota freguesia de Sistelo, no concelho de Arcos de Valdevez, a cujo serviço
esteve durante três anos. Sistelo era uma paróquia situada nos extremos do
concelho arcoense, onde se iniciava um trilho de montanha, que ligava ao vale
do rio Mouro; na modéstia do lugar sobressaía apenas o revivalista e um tanto
frustre castelo do Visconde de Sistelo… Para além da assistência religiosa
prestada aos paroquianos, a estadia do P.e Manuel Dias em Sistelo
ficou marcada pelas obras de recuperação da residência da paróquia e pela
publicação de um boletim paroquial, facto tanto mais de assinalar quanto a
edição destes pequenos jornais, apesar de excelentes meios de comunicação,
sobretudo com os emigrantes, não era, nem é, tão frequente, mesmo em grandes
paróquias, quanto mais nesta humilde freguesia, escondida nas ilhargas da
serra.
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| No início da sua vida activa |
Em 1961 foi transferido para a freguesia de Serdedelo, no
concelho de Ponte de Lima, próxima da localidade onde tinha nascido. Nos
primórdios da nacionalidade, Serdedelo, que já figurava no célebre testamento
da condessa Mumadona, era sede de um mosteiro feminino, cuja história permanece
obscura. Cedo extinto o mosteiro, Serdedelo manteve-se como paróquia religiosa,
mas nunca foi das mais avantajadas em território e em número de habitantes:
apesar de tão ancestral presença nos anais da História, era uma freguesia
modesta, relativamente isolada, que só a estrada aberta no segundo quartel do
século XX tirou do isolamento. A passagem do P.e Manuel Dias ficou
registada com as obras de restauro da residência paroquial, tanto mais
necessárias, quanto até aí quase abandonada, porque a freguesia não dispunha
desde há muito de um pároco residente, o que aliás voltaria a acontecer no
futuro. Com o pastoreio da freguesia de Serdedelo, que se estende até ao lugar
da Armada, localizado na nascente do rio Trovela, foi-lhe confiada também a da
Boalhosa.
O isolamento geográfico destas localidades permitiu que
nelas sobrevivessem durante mais tempo algumas tradições e costumes, a cujo
registo e estudo o P.e Dias dedicou meritoriamente a atenção, ainda
que por vezes esse trabalho tenha sido olhado com alguma incompreensão ou mesmo
com uma certa hostilidade. Dessa época datam algumas notas, por exemplo, sobre
o jogo do pau e sobre costumes funerários.
Em Outubro de 1968, iniciou a actividade como pároco da
freguesia da Labruja, no mesmo concelho de Ponte de Lima. A localidade
fora atravessada pela antiga via romana, que saía de Braga em direcção à Galiza
e, em meados da Idade Média, deu lugar ao chamado Caminho de Santiago,
percorrido por inúmeros peregrinos e almocreves. A Labruja aparece já referida
em vetustos documentos como sede de um mosteiro, criado pelo bispo Ermóigio,
que aí se refugiou na altura das incursões normandas. Deu nome a um dos
arcediagados da diocese de Tui, que abrangeria o território correspondente ao
vale do rio homónimo e algumas áreas mais próximas. No século XVII, a Labruja
aumentou a sua notoriedade com a erecção, devida ao mecenatismo de um
“brasileiro”, do Santuário de Senhor do Socorro, que constitui o núcleo central
de um projecto, elaborado sob a influência de outros “sacri monti”, e
designadamente do Bom Jesus de Braga, que não chegou a ser inteiramente
concluído, mas deixou aos vindouros um templo com certa grandiosidade
cenográfica, onde, desde a sua origem, se realiza um concorrida festa anual. A
actividade do P.e Manuel Dias contribuiu para acentuar o prestígio
alcançado pelo santuário, pelas suas festas e pela freguesia de Labruja.
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| Com um grupo de amigos, em Santa Maria Madalena (9/3/1968) |
Na altura em que noticiava a sua entrada em funções na
Labruja, o semanário Cardeal Saraiva, em 18 de Outubro de 1968, escrevia: “A
sua obra pastoral orienta-se pelos mais altos princípios, sendo notável o seu
esforço para arrancar ao obscurantismo cultural e religioso as populações a ele
confiadas. De inteligência bem formada e culto, foi professor do ensino
secundário no Externato Cardeal Saraiva, em Ponte de Lima. Tem colaborado na
imprensa, devendo-se-lhe duas exposições de arte e o contributo para vários
estudos arqueológicos”.
Data de 1971 o início da sua participação nas festas
concelhias de Ponte de Lima como membro da Comissão Organizadora das Feiras
Novas, cujo principal contributo foi a organização dos Cortejos Históricos,
que, sob a sua orientação, se tornaram conhecidos pela sua beleza como
espectáculo, pela alegria da concepção, pela fidelidade do guião histórico,
para o qual no início tive o prazer de dar o meu contributo, assim como pelo
rigor dos trajes e pela adequação dos figurantes ao carácter dos personagens
que representavam.
A orientação anteriormente imprimida à sua actividade
continuou presente quando, em 1972, foi transferido para a freguesia de
Nogueira, berço de gente de palmarés em diversas áreas de actividade, no mundo
civil e eclesiástico, e muito conhecida no exterior devido à interessante
igreja românica de S. Cláudio, localizada no extremo sul da paróquia, exemplar
único no concelho de Viana do Castelo, divulgada no excelente livro de Aguiar
Barreiros, Igrejas e Capela Românicas da Ribeira Lima.
À frente da paróquia de Nogueira continuaria até ao fim da
sua vida activa, mesmo quando, nos últimos anos, sentindo-se inseguro,
transferiu a sua residência para a vila de Ponte de Lima. Durante o ano de
1991, prestou serviço também à paróquia de Gondar, situada no concelho de
Caminha. A sua disponibilidade era suficiente para dedicar uma parte do tempo
ao ensino na cidade Viana do Castelo, onde, durante vários anos, leccionou
disciplinas como Música, Língua Portuguesa, Geografia, Moral e Religião.
Mesmo a residir em Nogueira e no meio de outras actividades,
era frequente a sua deslocação à vila de Ponte de Lima, a que nunca voltou as
costas e onde a sua presença era sempre querida e estimulante.
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| Com outros participantes nas escavações arqueológicas, em Braga (para identificar seguir a coordenada indicada pelas setas) |
Procurou valorizar-se permanentemente através do estudo e da participação em múltiplas actividades. Nos tempos iniciais da sua vida activa, e correspondendo a um apelo interior que já antes sentira, frequentou, em meses de verão, com alguns amigos de Ponte de Lima e muitos outros de Braga, um curso livre de arqueologia, nas instalações da Faculdade de Filosofia, em Braga, longe andavam ainda a Universidade do Minho e a Universidade Católica. O curso, em cuja base estava o entusiasmo do saudoso Cónego Arlindo Ribeiro da Cunha, Presidente da Junta Distrital, e do Dr. Egídio Guimarães, Director da Biblioteca Pública de Braga, ambos interessados na criação de um museu que se viria a desdobrar nos actuais Museu dos Biscainhos e Museu de Arqueologia de Braga, era proficientemente orientado pelo Dr. Rigaud de Sousa. Ao curso seguiram-se as escavações arqueológicas, que eram o seu principal objectivo, em Santa Marta da Falperra e na chamada Colina de Maximinos. No curso e nas escavações, participaram muitos jovens, alguns deles futuros investigadores, professores e até docentes universitários. Lembramo-nos da vianesa Salete da Ponte, do Eduardo Oliveira e de tanto outros.
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| Com José Rosa de Ataujo, um amigo especial |
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Com outros amigos e conhecidos, numa
"embaixada cultural" a Ourense, em 1984
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| Com alguns amigos, em S. António dos Mixões da Serra (1968-1970) |
Deu uma apreciável achega para a história do desporto em
Ponte de Lima, quando presidiu com brilho à direcção do Clube Desportivo Os
Limianos. Contribuiu de um modo especial para a revalorização do Caminho
de Santiago no concelho de Ponte de Lima, que levou, inclusivamente à
criação da Pousada para Peregrinos.
A sua vida está marcada por uma grande bonomia, dotado que
era de um espírito de grande abertura a toda a espécie de pessoas, mas
especialmente aos mais jovens e aos mais simples, sem qualquer espécie de
exclusivismos ou de preconceitos. Em certa medida também por isso houve pessoas
que não gostaram dele e até o perseguiram.
Uma das razões de alguma da má vontade de que
foi vítima, e que lhe deixou alguma amargura, esteve nas simpatias políticas
que manifestou em certa fase da sua vida. Em Fevereiro de 1969, com um
grupo de cidadãos pontelimenses, entre os quais se contava também o autor
destas linhas, assinava um comunicado encabeçado pelo saudoso Dr. Abel Carneiro
(autor da iniciativa), apelando aos cidadãos de ambos os sexos para que se
inscrevessem nos cadernos eleitorais, de modo a poderem votar nas eleições para
deputados que teriam lugar nesse ano. Tal acto foi visto como um sacrilégio e
motivou intrigas nos meios “piedosos” e “situacionistas” da vila, com denúncias
aos superiores eclesiásticos, nas quais foi injusta e especialmente visado o P.e
Manuel Dias. Após o 25 de Abril de 1974, não escondeu a sua predilecção por um
movimento político, o MDP-CDE, e, embora já residisse em Viana, esteve até com
os representantes deste movimento numa campanha realizada em Fontão, onde foram
abusivamente detidos. Essa participação, naturalmente discutível, e que lhe
trouxe dissabores, deve ser avaliada num contexto em que, na sua maior parte,
os párocos do concelho de Ponte de Lima exerceram de algum modo a sua
influência a favor de algum dos partidos políticos.![]() |
| Com a medalha de cidadão de mérito de Ponte de Lima |
O Centro de Estudos Regionais, prestigiada agremiação
cultural com sede em Viana do Castelo mas cujo âmbito de acção abrange todo o
Alto Minho, promoveu-o à categoria de Sócio de Mérito, em Assembleia Geral de
19 de Março de 2005, e, em boa hora, a Câmara de Ponte de Lima, também por
unanimidade, decidiu conferir-lhe a medalha de
prata de mérito cultural, com que foi agraciado em Março de 1996.
Publicou vários escritos no Arquivo do Alto Minho, no
Arquivo de Ponte de Lima, na Límia e no Serão de José Rosa
de Araújo, na revista Estudos Regionais, no periódico Anunciador da
Feiras Novas, no semanário Cardeal Saraiva, na Coletânea de
Autores Limianos Contemporâneos e no Boletim Municipal de Ponte de Lima.
De entre os títulos que publicou, respigamos os seguintes:
“Paleolítico no Concelho de Ponte
de Lima”, Arquivo do Alto Minho, vol. 15 [V.º da 2.ª série] (1967), p. 92-96 (colaboração com Afonso do Paço e Maria de Fátima
Melo);
“Um novo achado de machados de
talão em Monção”, Lucerna, 2.ª série, vol. II (1987), p. 11-14;
“O Cortejo Histórico das Feiras
Novas”, Anunciador das Feiras Novas, 6 (1989), p. 88-89;
“A Capela do Monte da Madalena em
Ponte de Lima”, Anunciador das Feiras Novas 8 (1991), p. 25-27;
“Centenário do nascimento do Cónego
Manuel José Barbosa Correia”, Anunciador das Feiras Novas 10 (1993), p.
60;
S. Tiago nas Imagens e Caminhos do
Alto Minho, Viana
do Castelo, Museu Municipal, 1993 (colab. com António Matos Reis e Rui A. Faria
Viana);
“Iconografia de São Tiago no Alto
Minho”, Estudos Regionais, 13-14 (Dezembro 1993), p. 73-78;
“A propósito de uma imagem da
Senhora de Fátima”, Anunciador das Feiras Novas 11 (1994), p. 123-125;
“A ascendência labrujense da Irmã
Maria da Conceição – a «Freirinha Santa» de Viana”, Anunciador das Feiras
Novas, 12 (1995), p. 110-111;
“Lendas e tradições do Caminho de
Ponte de Lima a Valença”, comunicação ao III Encontro sobre os Caminhos
Portugueses a Santiago, 1995. Actas publicadas pela Câmara M.
de Valença, 1997, p. 115-124;
“Fichas de Arqueologia – Antas e
mamoas”, Boletim Municipal de Ponte de Lima, 1 (Novembro, 1995), p. 20;
“Património do Concelho –
Castros”, Boletim Municipal de Ponte de Lima, 2 (Fevereiro, 1996), p.
16;
“O caminho de S. Tiago em Ponte de
Lima”, Anunciador das Feiras Novas, 13 (1996), p. 102-103;
“O Santuário do Senhor do Socorro
em Labruja”, em Colectânea de Autores Limianos Contemporâneos, Ponte de
Lima, Câmara Municipal, 1996, p. 71-73.
O Monte de Santa Maria Madalena, Ponte de Lima, Lethes Digital,
2007 recolha de textos publicados no semanário Cardeal Saraiva, em 1964 e
1965).
Cheio de anos e de merecimentos, como a
Bíblia diz acerca de alguns patriarcas, mas não poupado pelo sofrimento,
despediu-se deste mundo na quinta-feira santa, dia 2 de Abril de 2015, e foi
sepultado em Ponte de Lima na sexta-feira seguinte. Deixa entre os muitos que
com ele conviveram e, em geral, entre todos os seus conhecidos, e especialmente
entre os limianos, uma imagem de simpatia e de saudade.
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
Luís Dantas e a História
“A vida do homem
quanto dura?
Apenas o que dura o
orvalho da manhã”.
Estes versos dum
poema chinês do período Tang ajudam-me a dar início ao texto que me comprometi
a redigir acerca dos trabalhos de índole histórica da autoria de Luís Dantas.
Mais novo do que eu tantos anos quantos os versos dum “haikai”, cedo despertou
a minha atenção pela sua agilidade na arte de usar a palavra, que transparecia logo
nos primeiros textos que publicou na imprensa local. Sempre considerei
modelares os seus escritos, do género daqueles que viriam a ser reunidos no
álbum Figuras Populares de Ponte de Lima,
mistos de crónica, acutilância psicológica e arte de escrever.
Pela época em que prestava
serviço militar e logo depois, quando se mudou para Lisboa, surpreendeu-nos com
dois livros de poesia, dos quais, na altura, tive ocasião de ler os versos de Bolero
Bar, não menos perturbadores pela sensibilidade social que traduzem do
que pela economia e depuração da linguagem em que ganham forma e se movem as sombras
nocturnas.
Depois, no âmbito
literário, seguiu-se o que penso ter sido uma longa travessia do deserto,
poucas vezes interrompida, não sei por entre que dunas ou oásis. Até que
finalmente apareceu o Luís Dantas a manejar com destreza as ferramentas de investigador,
sem abdicar da linguagem apurada que era seu apanágio. Preparou-se,
discretamente, como aluno trabalhador, frequentando o curso de História, na
Universidade, e optou depois pela via do ensino, ao mesmo tempo que dava início
a uma promissora carreira de historiador, cedo, para nosso mal, interrompida.
Como resultado,
talvez, da envolvência académica, os seus primeiros trabalhos focam assuntos de
âmbito global, de tanto interesse como A
Água na Primeiras Civilizações (1999), dedicado a uma temática que
condicionou desde o início a existência e a sobrevivência da humanidade, ou o Vinho nas Primeiras Civilizações (1999),
que complementa o tema anterior no que representa, e representou sobretudo no
passado, como suporte do quotidiano, fornecedor de energias, comunicador de
vida, estimulador do espírito e motor das economias. O que surpreende em Luís
Dantas é a simultaneidade entre o conhecimento das matérias tratadas, o recorte
literário e a clareza didáctica da exposição, sinal da identificação do cientista
com a vertente do ensino, que então o ocupava. Nesse âmbito é de enquadrar Viagens e Descobertas (1999), uma
agradável e bem fundamentada exposição sobre a saga marítima dos portugueses.
Mas a história
global e a história nacional restituíram Luís Dantas a Ponte de Lima. A
primeira monografia de tema histórico que nos legou tratava precisamente de Ponte de Lima na Revolução de 1383
(1993). Luís Dantas, apoiado no relato de
Fernão Lopes, pretendeu e conseguiu com êxito fornecer aos limianos a versão
actual dos acontecimentos que, nos finais do século XIV, tiveram como cenário a
vila de Ponte e como protagonistas os seus habitantes, apostados em defender a
sua autonomia em relação a Castela. Ampliando o leque das suas fontes, e
alargando o campo de acção a toda a província do Minho, A Revolta da Maria da Fonte,
já publicada depois de se iniciar o novo milénio (2001), leva-nos a
reviver outra época intensa da nossa história.
A pequena história
local dá-lhe ocasião para redigir uma interessante plaquete dedicada aos alvores pontelimenses da sétima arte, com O Cinema Olympia em Ponte de Lima
(2006). A partir daí, a sua terra natal passa a fornecer-lhe temas para estudos
cada vez mais extensos. Visceralmente limiano, ainda por cima nascido na Rua do Arrabalde, atrai-o o fadário do
touro corrido pelas ruas na véspera do Corpo de Deus, uma celebração em que se
conjugam a história, o mito, a religião, os resquícios de marialvismo, e a
animação a que serve de pretexto, que tudo é objecto da monografia A Vaca das Cordas em Ponte de Lima
(2006).
Os grandes e
pequenos dramas dos seus concidadãos nunca deixaram de o inquietar. A Arte e a Guerra 1914-1918 (2007) debruça-se
sobre os reflexos que os acontecimentos bélicos tiveram nos movimentos
artísticos e nas diversas manifestações da arte, sobretudo na pintura, no
cinema e na fotografia. Quando preparava este estudo para a publicação, Luís
Dantas estava a elaborar um outro, com assunto afim, mas que o tocava mais de
perto: Os Limianos na Grande Guerra
(2007) é um trabalho excepcional, pela vasta recolha de informação que exigiu e pela intensidade da
vivência que repassa as suas páginas, que se tornam densas ao evocar o heroísmo
e o sofrimento dos homens da sua terra natal.
António Feijó, a boémia estudantil e os primeiros
versos (2008), uma das obras cuja elaboração
lhe terá dado maior prazer, ao evocar uma figura tutelar, com a qual o Luís
devia sentir uma grande afinidade, quando se aproximava o ano em que se
comemorava um século e meio do nascimento do grande lírico, é dedicada ao período
da formação do poeta na Universidade de Coimbra. Esta digressão pela cidade do
Mondego dar-lhe-ia azo, para, retrocedendo no tempo, levar a cabo outro dos
seus bons estudos, cujo tema é A Geração
Coimbrã de 62 (2009), dedicada a um período charneira da nossa cultura, no
qual se encontraram tantos protagonistas da nossa história nas décadas
seguintes.
Ainda em 2009, associando
ao seu o nome da filha Catarina Dantas, publica O Circo em Ponte de Lima, em que se registam os momentos
inesquecíveis da vida local que a passagem sazonal do circo proporcionava,
evocados com ternura e abundância de elementos informativos.
O ano de 2010 ficou
marcado pela aparição de três obras com temáticas diferenciadas mas
incontornáveis na bibliografia activa do Luís Dantas. Retratos Galegos traduz o seu saber e ao mesmo tempo um grande
afecto por essa extraordinária nação dos nossos mais que irmãos de sempre, que
nascem, trabalham e vivem do outro lado da fronteira, mas que também a
ultrapassaram e ultrapassam, para nos enriquecer com o contributo do seu
trabalho, quantas vezes tão duro, e com a
sua alegria. A Geração Beat é
dedicada a esse fenómeno que entusiasmou a nossa juventude, misturando
inquietação social e romantismo, sobretudo através da versão simpática que nos
chegou através de Bob Dylan e dos seus amigos. Mas o ano de 2010 ficou ainda
assinalado pela excepcional conjugação de história, etnografia e observação
penetrante que se fundem nesse álbum de conhecimentos, memórias e vivências,
a que deu o título Os Garranos na Península Ibérica, enriquecido pelos trabalhos de
excelente qualidade fotográfica do Amândio de Sousa Vieira. O centenário da
República forneceu a Luís Dantas a motivação para se abalançar a uma exaustiva
recolha de dados sobre os Deputados do Alto Minho na Primeira República, que
não chegou a aparecer em livro, embora o valor do seu contributo prosopográfico
e o interesse para a história da região o justificassem.
Não chegara ainda a
meio o ano de 2011, quando o Luís Dantas deixou a companhia dos seus amigos.
Esse período foi todavia intenso na sua actividade literária. Ultimou vários
livros para serem editados, e, embora em parte não chegassem a ser impressos,
conhecemo-los através da sua publicação na Internet, que teve o cuidado de
providenciar. Às nossas mãos já impresso veio ter Gomes Leal: o Anjo Rebelde: ultrapassa as raias da biografia e da
crónica literária, para inserir o poeta na vivência cultural e política do seu
tempo, em que se enquadra a proclamação da República, e resulta da vastidão das
leituras e dos profundos conhecimentos do autor, complementados por uma longa
série de leituras e alicerçados num sério e metódico trabalho de investigação.
Na Internet podemos
ler Gonçalves Dias: o poeta do Maranhão,
que estuda a vida e a obra literária do vate luso-brasileiro. A vertente
transoceânica dos seus interesses literários manifesta-se também em Mário Domingues, o jornalista lisboeta,
nascido na ilha do Príncipe, cuja alma Luís Dantas soube entender. Do olvido total
salvou Luís Dantas um escritor bracarense que nasceu em 1870 e morreu cego e
quase abandonado de todos, aos 48 anos – Alberto
Madureira: um poeta esquecido é uma evocação comovente mas objectiva, que
se ajusta dramaticamente à situação de um autor que a escreve quando, sem o
saber, está prestes a concluir a sua vida.
“Ognuno sta solo sul cuor della terra
Trafitto da un raggio di sole:
Ed è subito sera”.
Salvatore Quasimodo, Acque e terre,
Florença 1930
(Cada um de nós
está sozinho sobre o coração da terra
Atravessado por um
raio de sol:
E de repente é
noite).
[Publicado na revista Limiana]
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Ilha dos Amores - o Hino a Ponte de Lima e a sua história
Hino a Ponte de Lima
Ilha dos Amores
Os
primeiros anos da minha vida activa decorreram na sede do concelho onde nasci, Ponte de Lima, e nos seus inesquecíveis arredores. Nos tempos livres, que ocupei quase sempre nos estudos e nas actividades culturais,
deliciava-me a ouvir música, de que sempre fui apreciador, ainda que mau executante, e, nesses tempos em que não abundavam outros géneros de orquestras, dei comigo, por vezes, a apreciar esta ou aquela banda de música, nos mais desvairados sítios. Foi assim que me tornei amigo de Domingos Matos, ourives com estabelecimento na rua do Souto (agora nas competentes mãos do seu filho César), a quem não escapava uma única banda de música, que tivesse algum prestígio, fosse no coração da nossa vila ou no adro de um santuário ou de uma capela, em dia de festa, desde que ao local tivesse facilidades de acesso, o que na época não era assim tão fácil. Incipiente condutor de automóvel - nessa altura o número de tais veículos contava-se na sede do concelho pelos dedos da mão ̶ , deu-me uma ou outra vez a honra da sua companhia.
Certa vez, demos uma volta por Vigo e, pelo fim da tarde, fomos ter a Gondomar, nas proximidades de Baiona, onde, numa animada romaria popular actuava a Banda de Monção, regida pelo competente maestro e compositor Miguel Oliveira. Ficou este radiante ao saber que tinha dois
limianos a escutá-lo e no intervalo
apresentou-nos à comissão
de festas como membros ̶
presidente e secretário ̶
da direcção da banda!
Surpreendidos ̶
na primeira oportunidade, explicou-nos, em rápido à parte ser
essa a razão
da inesperada apresentação ̶
fomos logo convidados, sem direito a escusa, para jantar com o maestro e a comissão de festas. Depois do aprazível jantar,
ouvimos de novo
a actuação da banda
e regressamos os dois,
numa penosa viagem através de uma estrada de montanha inteiramente desconhecida, no meio do mais intenso nevoeiro, se não eram nuvens de baixa altitude, a tardias horas da noite...
Foi também por intermédio do amigo ourives que conheci o tenente coronel Amílcar Morais, que, além de ser exímio compositor e maestro ̶ entre outras, dirigiu durante dez anos a Orquestra Ligeira do Exército – era um acendrado amigo de Ponte de Lima. Domingos Matos confessou-me, em dada altura, que um dos maiores desejos de Amílcar Morais era o de compor um Hino a Ponte de Lima. Concordei que era uma bela ideia e que se devia entusiasmar o maestro a concretizá-la...
Um belo dia, Domingos Matos veio ter comigo: o compositor queria avançar com a obra, mas... faltava a letra para
o Hino. Tinham conversado os dois, leram até poesias que eu tinha publicado no jornal, e propunham que fosse eu a fazer os versos. Fiquei engasgado, não disse que sim nem que não, mas que ia pensar no assunto, e que de qualquer modo não iria ser por falta da letra que Ponte de Lima deixaria de ter o seu hino... Pelo caminho fui pensando no assunto, mas não me considerava digno de fazer a letra para
o Hino da minha terra.
Se eu
fosse um
António Feijó... E, então,
conforme seguia pela estrada, aparecia-me cada vez mais claro que o refrão ou a parte fixa do hino tinham de ser aquelas duas quadras do livro Ilha dos Amores, colocadas a um e outro lado do seu busto no monumento que lhe foi dedicado na vila de Ponte de Lima. E se o refrão fosse de António Feijó, os restantes versos também deviam ser do mesmo autor. As três quadras do poema Inverno que se seguem às duas já escolhidas prestavam-se a servir para esse efeito, mas necessitava-se de mais algumas que se adequassem ao hino. Encontramo-las um pouco mais atrás no poema Domingo em Terra Alheia, do mesmo livro Ilha dos Amores. Mas havia algumas dificuldades, sobretudo porque,
como sucede com uma grande parte dos poemas de António Feijó, a métrica não era inteiramente regular.
Tive de lançar mão do cinzel para fazer uns pequenos arranjos, com o maior respeito possível ao espírito e à letra do nosso grande poeta.
Assim se conta como António Feijó, com quase um século de antecedência, com a nossa pequena “ajuda”, escreveu os versos para
o Hino a Ponte de Lima, a que se deu o mesmo título do livro de onde foram extraídos – Ilha dos Amores.
Em 1980, no Almanaque de Ponte de Lima, publicamo-lo pela primeira vez, na versão com acompanhamento para piano, depois reproduzida no Anunciador das Feiras Novas, em 1987. No Anunciador das Feiras Novas, em 2009, publicámos a partitura original para banda.
A Casa do Concelho de Ponte de Lima publicou recentemente um CD com este cântico de louvor à nossa terra
entoado pelo Orfeão Limiano, com acompanhamento da Banda Sinfónica da P. S. P.
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