domingo, 5 de abril de 2015

P. Manuel Gomes Dias

Um limiano para a eternidade

 


Em Santa Maria Madalena, onde viviam os seus pais – António Dias, que durante muitos anos cuidou com esmero do jardim que embelezava essa estância panorâmica, e sua esposa Maria Gomes –, nasceu Manuel Gomes Dias, a 4 de Maio de 1933, e, com os seus numerosos irmãos, aí passou a infância, entre a verdura dos arbustos e os canteiros de flores. O local onde ocorreu o nascimento e decorreram os mais tenros anos do pequeno Manuel pode tomar-se como emblemático da sua maneira de ser e da sua vida futura: amplo panorama, larga visão, alguma elevação, ainda que moderada e sem arroubos, muito sol, uma paisagem digna de ser amada…

No último ano de residência em Ponte de Lima
   Foi baptizado na igreja paroquial de Fornelos, cujo termo abrange a estância panorâmica de Santa Maria Madalena, com os limites da freguesia a passar logo abaixo da capela.
Fez a instrução primária na vila de Ponte de Lima; frequentou a secção masculina do Colégio D. Maria Pia e passou nas provas de admissão aos estudos liceais.
Em entrevista concedida a um órgão da imprensa local, referiu que ainda pensou seguir o curso de medicina, mas que, sendo essa hipótese na altura inviável, decidiu, sem hesitar, matricular-se no Seminário Diocesano de Braga, que começou a frequentar em 1946. Aí foi reconhecido como bom aluno e, em anos mais avançados, despertou a atenção dos seus superiores pela sua queda ou, como terá dito o Cónego Aguiar Barreiros, pelo seu “faro” para os bens do património artístico e arqueológico. Com o mesmo Cónego Aguiar Barreiros e com o Cónego Luciano Afonso dos Santos, colaborou, ainda seminarista, na organização de algumas exposições realizadas em Braga. Por ocasião de algumas dessas exposições, travou conhecimento com José Rosa de Araújo, de quem se viria a tornar grande amigo e companheiro em lides de reconhecimento arqueológico e de recolha etnográfica, na Ribeira Lima.
Ordenado sacerdote em 15 de Agosto de 1958, pelo Arcebispo D. António Martins Júnior, nesse ano foi colocado como pároco na remota freguesia de Sistelo, no concelho de Arcos de Valdevez, a cujo serviço esteve durante três anos. Sistelo era uma paróquia situada nos extremos do concelho arcoense, onde se iniciava um trilho de montanha, que ligava ao vale do rio Mouro; na modéstia do lugar sobressaía apenas o revivalista e um tanto frustre castelo do Visconde de Sistelo… Para além da assistência religiosa prestada aos paroquianos, a estadia do P.e Manuel Dias em Sistelo ficou marcada pelas obras de recuperação da residência da paróquia e pela publicação de um boletim paroquial, facto tanto mais de assinalar quanto a edição destes pequenos jornais, apesar de excelentes meios de comunicação, sobretudo com os emigrantes, não era, nem é, tão frequente, mesmo em grandes paróquias, quanto mais nesta humilde freguesia, escondida nas ilhargas da serra.
No início da sua vida activa

Em 1961 foi transferido para a freguesia de Serdedelo, no concelho de Ponte de Lima, próxima da localidade onde tinha nascido. Nos primórdios da nacionalidade, Serdedelo, que já figurava no célebre testamento da condessa Mumadona, era sede de um mosteiro feminino, cuja história permanece obscura. Cedo extinto o mosteiro, Serdedelo manteve-se como paróquia religiosa, mas nunca foi das mais avantajadas em território e em número de habitantes: apesar de tão ancestral presença nos anais da História, era uma freguesia modesta, relativamente isolada, que só a estrada aberta no segundo quartel do século XX tirou do isolamento. A passagem do P.e Manuel Dias ficou registada com as obras de restauro da residência paroquial, tanto mais necessárias, quanto até aí quase abandonada, porque a freguesia não dispunha desde há muito de um pároco residente, o que aliás voltaria a acontecer no futuro. Com o pastoreio da freguesia de Serdedelo, que se estende até ao lugar da Armada, localizado na nascente do rio Trovela, foi-lhe confiada também a da Boalhosa.
O isolamento geográfico destas localidades permitiu que nelas sobrevivessem durante mais tempo algumas tradições e costumes, a cujo registo e estudo o P.e Dias dedicou meritoriamente a atenção, ainda que por vezes esse trabalho tenha sido olhado com alguma incompreensão ou mesmo com uma certa hostilidade. Dessa época datam algumas notas, por exemplo, sobre o jogo do pau e sobre costumes funerários.
Em Outubro de 1968, iniciou a actividade como pároco da freguesia da Labruja, no mesmo concelho de Ponte de Lima. A localidade  fora atravessada pela antiga via romana, que saía de Braga em direcção à Galiza e, em meados da Idade Média, deu lugar ao chamado Caminho de Santiago, percorrido por inúmeros peregrinos e almocreves. A Labruja aparece já referida em vetustos documentos como sede de um mosteiro, criado pelo bispo Ermóigio, que aí se refugiou na altura das incursões normandas. Deu nome a um dos arcediagados da diocese de Tui, que abrangeria o território correspondente ao vale do rio homónimo e algumas áreas mais próximas. No século XVII, a Labruja aumentou a sua notoriedade com a erecção, devida ao mecenatismo de um “brasileiro”, do Santuário de Senhor do Socorro, que constitui o núcleo central de um projecto, elaborado sob a influência de outros “sacri monti”, e designadamente do Bom Jesus de Braga, que não chegou a ser inteiramente concluído, mas deixou aos vindouros um templo com certa grandiosidade cenográfica, onde, desde a sua origem, se realiza um concorrida festa anual. A actividade do P.e Manuel Dias contribuiu para acentuar o prestígio alcançado pelo santuário, pelas suas festas e pela freguesia de Labruja.

Com um grupo de amigos, em Santa Maria Madalena (9/3/1968)

Na altura em que noticiava a sua entrada em funções na Labruja, o semanário Cardeal Saraiva, em 18 de Outubro de 1968, escrevia: “A sua obra pastoral orienta-se pelos mais altos princípios, sendo notável o seu esforço para arrancar ao obscurantismo cultural e religioso as populações a ele confiadas. De inteligência bem formada e culto, foi professor do ensino secundário no Externato Cardeal Saraiva, em Ponte de Lima. Tem colaborado na imprensa, devendo-se-lhe duas exposições de arte e o contributo para vários estudos arqueológicos.
Data de 1971 o início da sua participação nas festas concelhias de Ponte de Lima como membro da Comissão Organizadora das Feiras Novas, cujo principal contributo foi a organização dos Cortejos Históricos, que, sob a sua orientação, se tornaram conhecidos pela sua beleza como espectáculo, pela alegria da concepção, pela fidelidade do guião histórico, para o qual no início tive o prazer de dar o meu contributo, assim como pelo rigor dos trajes e pela adequação dos figurantes ao carácter dos personagens que representavam.
A orientação anteriormente imprimida à sua actividade continuou presente quando, em 1972, foi transferido para a freguesia de Nogueira, berço de gente de palmarés em diversas áreas de actividade, no mundo civil e eclesiástico, e muito conhecida no exterior devido à interessante igreja românica de S. Cláudio, localizada no extremo sul da paróquia, exemplar único no concelho de Viana do Castelo, divulgada no excelente livro de Aguiar Barreiros, Igrejas e Capela Românicas da Ribeira Lima.
À frente da paróquia de Nogueira continuaria até ao fim da sua vida activa, mesmo quando, nos últimos anos, sentindo-se inseguro, transferiu a sua residência para a vila de Ponte de Lima. Durante o ano de 1991, prestou serviço também à paróquia de Gondar, situada no concelho de Caminha. A sua disponibilidade era suficiente para dedicar uma parte do tempo ao ensino na cidade Viana do Castelo, onde, durante vários anos, leccionou disciplinas como Música, Língua Portuguesa, Geografia, Moral e Religião.
Mesmo a residir em Nogueira e no meio de outras actividades, era frequente a sua deslocação à vila de Ponte de Lima, a que nunca voltou as costas e onde a sua presença era sempre querida e estimulante.


Com outros participantes nas escavações arqueológicas, em Braga
(para identificar seguir a coordenada indicada pelas setas)

    Procurou valorizar-se permanentemente através do estudo e da participação em múltiplas actividades. Nos tempos iniciais da sua vida activa, e correspondendo a um apelo interior que já antes sentira, frequentou, em meses de verão, com alguns amigos de Ponte de Lima e muitos outros de Braga, um curso livre de arqueologia, nas instalações da Faculdade de Filosofia, em Braga, longe andavam ainda a Universidade do Minho e a Universidade Católica. O curso, em cuja base estava o entusiasmo do saudoso Cónego Arlindo Ribeiro da Cunha, Presidente da Junta Distrital, e do Dr. Egídio Guimarães, Director da Biblioteca Pública de Braga, ambos interessados na criação de um museu que se viria a desdobrar nos actuais Museu dos Biscainhos e Museu de Arqueologia de Braga, era proficientemente orientado pelo Dr. Rigaud de Sousa. Ao curso seguiram-se as escavações arqueológicas, que eram o seu principal objectivo, em Santa Marta da Falperra e na chamada Colina de Maximinos. No curso e nas escavações, participaram muitos jovens, alguns deles futuros investigadores, professores e até docentes universitários. Lembramo-nos da vianesa Salete da Ponte, do Eduardo Oliveira e de tanto outros.
Com José Rosa de Ataujo, um amigo especial 
O gosto pela arqueologia por parte do P.e Manuel Dias traduzir-se-ia depois numa intensa actividade que o levou a calcorrear vezes sem conta o concelho de Ponte de Lima, e frutificou numa inventariação de ruínas e vestígios arqueológicos existentes na área do município, que se repercutiu na publicação de estudos da sua autoria ou de outros investigadores, incluindo professores universitários, que os utilizaram nos seus trabalhos e edições. Diga-se, aliás, que uma das boas qualidades do P.e Manuel Dias foi a generosidade com que sempre facultou aos outros o acesso aos materiais carreados pelos seus estudos e levantamentos feitos no terreno, em vários domínios, mas sobretudo nos da arqueologia, da antropologia e da etnologia. A esmo e sem critério de exclusividade, citemos conforme afloram à tona da memória: Maria de Fátima Melo, Carlos Alberto Ferreira de Almeida, C. A. Brochado de Almeida, Caroline Brettell, Manuel Vila Verde Cabral, Moisés Espírito Santo, José Rosa Araújo. 

Com outros amigos e conhecidos, numa 
"embaixada cultural" a Ourense, em 1984

         Na vila de Ponte de Lima, Manuel Gomes Dias esteve ligado à criação do Instituto Limiano – Museu dos Terceiros, como um dos mais activos membros da respectiva comissão instaladora. Depois de organizar, em 1965, uma inesquecível exposição, anterior à fundação do Instituto, subordinada ao tema Artistas Limianos- Assuntos Limianos, foi decisivo o seu contributo para diversas exposições promovidas por esta organização cultural, das quais, sem preocupação de ordem cronológica, são particularmente lembradas as seguintes: o rio Lima, a casa limiana, o linho, a feira, a arte sacra mariana… Fez parte da direcção da LIMICI – Associação de Defesa do Ambiente e do Património Cultural de Ponte de Lima. Teve um papel fundamental na organização da exposição S. Tiago nas Imagens e Caminhos do Alto Minho, apresentada no Museu Municipal de Viana do Castelo, de 10 a 31 de Julho de 1993. Refira-se a propósito que, de 1979 a 1991, fez parte da Comissão Diocesana de Arte e Cultura e em 1991 foi nomeado responsável pelo Museu Diocesano de Arte Sacra, ainda em fase de instalação, e muito haveria a esperar da sua actividade se a doença, sempre temível, o não surpreendesse, levando-o a passar à categoria de Director Emérito em 2008.

Com alguns amigos, em S. António dos Mixões da Serra (1968-1970)

Deu uma apreciável achega para a história do desporto em Ponte de Lima, quando presidiu com brilho à direcção do Clube Desportivo Os Limianos. Contribuiu de um modo especial para a revalorização do Caminho de Santiago no concelho de Ponte de Lima, que levou, inclusivamente à criação da Pousada para Peregrinos.
A sua vida está marcada por uma grande bonomia, dotado que era de um espírito de grande abertura a toda a espécie de pessoas, mas especialmente aos mais jovens e aos mais simples, sem qualquer espécie de exclusivismos ou de preconceitos. Em certa medida também por isso houve pessoas que não gostaram dele e até o perseguiram.
     Uma das razões de alguma da má vontade de que foi vítima, e que lhe deixou alguma amargura, esteve nas simpatias políticas que manifestou em certa fase da sua vida.  Em Fevereiro de 1969, com um grupo de cidadãos pontelimenses, entre os quais se contava também o autor destas linhas, assinava um comunicado encabeçado pelo saudoso Dr. Abel Carneiro (autor da iniciativa), apelando aos cidadãos de ambos os sexos para que se inscrevessem nos cadernos eleitorais, de modo a poderem votar nas eleições para deputados que teriam lugar nesse ano. Tal acto foi visto como um sacrilégio e motivou intrigas nos meios “piedosos” e “situacionistas” da vila, com denúncias aos superiores eclesiásticos, nas quais foi injusta e especialmente visado o P.e Manuel Dias. Após o 25 de Abril de 1974, não escondeu a sua predilecção por um movimento político, o MDP-CDE, e, embora já residisse em Viana, esteve até com os representantes deste movimento numa campanha realizada em Fontão, onde foram abusivamente detidos. Essa participação, naturalmente discutível, e que lhe trouxe dissabores, deve ser avaliada num contexto em que, na sua maior parte, os párocos do concelho de Ponte de Lima exerceram de algum modo a sua influência a favor de algum dos partidos políticos.
Com a medalha de cidadão de mérito de Ponte de Lima

O Centro de Estudos Regionais, prestigiada agremiação cultural com sede em Viana do Castelo mas cujo âmbito de acção abrange todo o Alto Minho, promoveu-o à categoria de Sócio de Mérito, em Assembleia Geral de 19 de Março de 2005, e, em boa hora, a Câmara de Ponte de Lima, também por unanimidade, decidiu conferir-lhe a medalha de prata de mérito cultural, com que foi agraciado em Março de 1996.
Publicou vários escritos no Arquivo do Alto Minho, no Arquivo de Ponte de Lima, na Límia e no Serão de José Rosa de Araújo, na revista Estudos Regionais, no periódico Anunciador da Feiras Novas, no semanário Cardeal Saraiva, na Coletânea de Autores Limianos Contemporâneos e no Boletim Municipal de Ponte de Lima.
De entre os títulos que publicou, respigamos os seguintes:
“Paleolítico no Concelho de Ponte de Lima”, Arquivo do Alto Minho, vol. 15 [V.º da 2.ª série] (1967), p. 92-96 (colaboração com Afonso do Paço e Maria de Fátima Melo);
“Um novo achado de machados de talão em Monção”, Lucerna, 2.ª série, vol. II (1987), p. 11-14;
“O Cortejo Histórico das Feiras Novas”, Anunciador das Feiras Novas, 6 (1989), p. 88-89;
“A Capela do Monte da Madalena em Ponte de Lima”, Anunciador das Feiras Novas 8 (1991), p. 25-27;
“Centenário do nascimento do Cónego Manuel José Barbosa Correia”, Anunciador das Feiras Novas 10 (1993), p. 60;
S. Tiago nas Imagens e Caminhos do Alto Minho, Viana do Castelo, Museu Municipal, 1993 (colab. com António Matos Reis e Rui A. Faria Viana);
“Iconografia de São Tiago no Alto Minho”, Estudos Regionais, 13-14 (Dezembro 1993), p. 73-78;
“A propósito de uma imagem da Senhora de Fátima”, Anunciador das Feiras Novas 11 (1994), p. 123-125;
“A ascendência labrujense da Irmã Maria da Conceição – a «Freirinha Santa» de Viana”, Anunciador das Feiras Novas, 12 (1995), p. 110-111;
“Lendas e tradições do Caminho de Ponte de Lima a Valença”, comunicação ao III Encontro sobre os Caminhos Portugueses a Santiago, 1995. Actas publicadas pela Câmara M. de Valença, 1997, p. 115-124;
“Fichas de Arqueologia – Antas e mamoas”, Boletim Municipal de Ponte de Lima, 1 (Novembro, 1995), p. 20;
“Património do Concelho – Castros”, Boletim Municipal de Ponte de Lima, 2 (Fevereiro, 1996), p. 16;
“O caminho de S. Tiago em Ponte de Lima”, Anunciador das Feiras Novas, 13 (1996), p. 102-103;
“O Santuário do Senhor do Socorro em Labruja”, em Colectânea de Autores Limianos Contemporâneos, Ponte de Lima, Câmara Municipal, 1996, p. 71-73.
O Monte de Santa Maria Madalena, Ponte de Lima, Lethes Digital, 2007  recolha de textos publicados no semanário Cardeal Saraiva, em 1964 e 1965).

    Cheio de anos e de merecimentos, como a Bíblia diz acerca de alguns patriarcas, mas não poupado pelo sofrimento, despediu-se deste mundo na quinta-feira santa, dia 2 de Abril de 2015, e foi sepultado em Ponte de Lima na sexta-feira seguinte. Deixa entre os muitos que com ele conviveram e, em geral, entre todos os seus conhecidos, e especialmente entre os limianos, uma imagem de simpatia e de saudade.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Luís Dantas e a História


“A vida do homem quanto dura?
Apenas o que dura o orvalho da manhã”.

Estes versos dum poema chinês do período Tang ajudam-me a dar início ao texto que me comprometi a redigir acerca dos trabalhos de índole histórica da autoria de Luís Dantas. Mais novo do que eu tantos anos quantos os versos dum “haikai”, cedo despertou a minha atenção pela sua agilidade na arte de usar a palavra, que transparecia logo nos primeiros textos que publicou na imprensa local. Sempre considerei modelares os seus escritos, do género daqueles que viriam a ser reunidos no álbum Figuras Populares de Ponte de Lima, mistos de crónica, acutilância psicológica e arte de escrever.
Pela época em que prestava serviço militar e logo depois, quando se mudou para Lisboa, surpreendeu-nos com dois livros de poesia, dos quais, na altura, tive ocasião de ler os versos de Bolero Bar, não menos perturbadores pela sensibilidade social que traduzem do que pela economia e depuração da linguagem em que ganham forma e se movem as sombras nocturnas.
Depois, no âmbito literário, seguiu-se o que penso ter sido uma longa travessia do deserto, poucas vezes interrompida, não sei por entre que dunas ou oásis. Até que finalmente apareceu o Luís Dantas a manejar com destreza as ferramentas de investigador, sem abdicar da linguagem apurada que era seu apanágio. Preparou-se, discretamente, como aluno trabalhador, frequentando o curso de História, na Universidade, e optou depois pela via do ensino, ao mesmo tempo que dava início a uma promissora carreira de historiador, cedo, para nosso mal, interrompida.
Como resultado, talvez, da envolvência académica, os seus primeiros trabalhos focam assuntos de âmbito global, de tanto interesse como A Água na Primeiras Civilizações (1999), dedicado a uma temática que condicionou desde o início a existência e a sobrevivência da humanidade, ou o Vinho nas Primeiras Civilizações (1999), que complementa o tema anterior no que representa, e representou sobretudo no passado, como suporte do quotidiano, fornecedor de energias, comunicador de vida, estimulador do espírito e motor das economias. O que surpreende em Luís Dantas é a simultaneidade entre o conhecimento das matérias tratadas, o recorte literário e a clareza didáctica da exposição, sinal da identificação do cientista com a vertente do ensino, que então o ocupava. Nesse âmbito é de enquadrar Viagens e Descobertas (1999), uma agradável e bem fundamentada exposição sobre a saga marítima dos portugueses.
Mas a história global e a história nacional restituíram Luís Dantas a Ponte de Lima. A primeira monografia de tema histórico que nos legou tratava precisamente de Ponte de Lima na Revolução de 1383 (1993). Luís Dantas, apoiado no relato de  Fernão Lopes, pretendeu e conseguiu com êxito fornecer aos limianos a versão actual dos acontecimentos que, nos finais do século XIV, tiveram como cenário a vila de Ponte e como protagonistas os seus habitantes, apostados em defender a sua autonomia em relação a Castela. Ampliando o leque das suas fontes, e alargando o campo de acção a toda a província do Minho, A Revolta da Maria da Fonte,  já publicada depois de se iniciar o novo milénio (2001), leva-nos a reviver outra época intensa da nossa história.
A pequena história local dá-lhe ocasião para redigir uma interessante plaquete dedicada aos alvores pontelimenses da sétima arte, com O Cinema Olympia em Ponte de Lima (2006). A partir daí, a sua terra natal passa a fornecer-lhe temas para estudos cada vez mais extensos. Visceralmente limiano, ainda por cima nascido na Rua do Arrabalde, atrai-o o fadário do touro corrido pelas ruas na véspera do Corpo de Deus, uma celebração em que se conjugam a história, o mito, a religião, os resquícios de marialvismo, e a animação a que serve de pretexto, que tudo é objecto da monografia A Vaca das Cordas em Ponte de Lima (2006).
Os grandes e pequenos dramas dos seus concidadãos nunca deixaram de o inquietar. A Arte e a Guerra 1914-1918 (2007) debruça-se sobre os reflexos que os acontecimentos bélicos tiveram nos movimentos artísticos e nas diversas manifestações da arte, sobretudo na pintura, no cinema e na fotografia. Quando preparava este estudo para a publicação, Luís Dantas estava a elaborar um outro, com assunto afim, mas que o tocava mais de perto: Os Limianos na Grande Guerra (2007) é um trabalho excepcional, pela vasta recolha de  informação que exigiu e pela intensidade da vivência que repassa as suas páginas, que se tornam densas ao evocar o heroísmo e o sofrimento dos homens da sua terra natal.
António Feijó, a boémia estudantil e os primeiros versos (2008), uma das obras cuja elaboração lhe terá dado maior prazer, ao evocar uma figura tutelar, com a qual o Luís devia sentir uma grande afinidade, quando se aproximava o ano em que se comemorava um século e meio do nascimento do grande lírico, é dedicada ao período da formação do poeta na Universidade de Coimbra. Esta digressão pela cidade do Mondego dar-lhe-ia azo, para, retrocedendo no tempo, levar a cabo outro dos seus bons estudos, cujo tema é A Geração Coimbrã de 62 (2009), dedicada a um período charneira da nossa cultura, no qual se encontraram tantos protagonistas da nossa história nas décadas seguintes.
Ainda em 2009, associando ao seu o nome da filha Catarina Dantas, publica O Circo em Ponte de Lima, em que se registam os momentos inesquecíveis da vida local que a passagem sazonal do circo proporcionava, evocados com ternura e abundância de elementos informativos.
O ano de 2010 ficou marcado pela aparição de três obras com temáticas diferenciadas mas incontornáveis na bibliografia activa do Luís Dantas. Retratos Galegos traduz o seu saber e ao mesmo tempo um grande afecto por essa extraordinária nação dos nossos mais que irmãos de sempre, que nascem, trabalham e vivem do outro lado da fronteira, mas que também a ultrapassaram e ultrapassam, para nos enriquecer com o contributo do seu trabalho, quantas vezes tão duro, e com a  sua alegria. A Geração Beat é dedicada a esse fenómeno que entusiasmou a nossa juventude, misturando inquietação social e romantismo, sobretudo através da versão simpática que nos chegou através de Bob Dylan e dos seus amigos. Mas o ano de 2010 ficou ainda assinalado pela excepcional conjugação de história, etnografia e observação penetrante que se fundem nesse álbum de conhecimentos, memórias e vivências, a  que deu o título Os Garranos na Península Ibérica, enriquecido pelos trabalhos de excelente qualidade fotográfica do Amândio de Sousa Vieira. O centenário da República forneceu a Luís Dantas a motivação para se abalançar a uma exaustiva recolha de dados sobre os Deputados do Alto Minho na Primeira República, que não chegou a aparecer em livro, embora o valor do seu contributo prosopográfico e o interesse para a história da região o justificassem.
Não chegara ainda a meio o ano de 2011, quando o Luís Dantas deixou a companhia dos seus amigos. Esse período foi todavia intenso na sua actividade literária. Ultimou vários livros para serem editados, e, embora em parte não chegassem a ser impressos, conhecemo-los através da sua publicação na Internet, que teve o cuidado de providenciar. Às nossas mãos já impresso veio ter Gomes Leal: o Anjo Rebelde: ultrapassa as raias da biografia e da crónica literária, para inserir o poeta na vivência cultural e política do seu tempo, em que se enquadra a proclamação da República, e resulta da vastidão das leituras e dos profundos conhecimentos do autor, complementados por uma longa série de leituras e alicerçados num sério e metódico trabalho de investigação.
Na Internet podemos ler Gonçalves Dias: o poeta do Maranhão, que estuda a vida e a obra literária do vate luso-brasileiro. A vertente transoceânica dos seus interesses literários manifesta-se também em Mário Domingues, o jornalista lisboeta, nascido na ilha do Príncipe, cuja alma Luís Dantas soube entender. Do olvido total salvou Luís Dantas um escritor bracarense que nasceu em 1870 e morreu cego e quase abandonado de todos, aos 48 anos – Alberto Madureira: um poeta esquecido é uma evocação comovente mas objectiva, que se ajusta dramaticamente à situação de um autor que a escreve quando, sem o saber, está prestes a concluir a sua vida.

“Ognuno sta solo sul cuor della terra
Trafitto da un raggio di sole:
Ed è subito sera”.
Salvatore Quasimodo, Acque e terre, Florença 1930

(Cada um de nós está sozinho sobre o coração da terra
Atravessado por um raio de sol:
E de repente é noite).

[Publicado na revista Limiana]

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Ilha dos Amores - o Hino a Ponte de Lima e a sua história

Hino a Ponte de Lima

 Ilha dos Amores
 


     Os primeiros anos da minha vida activa decorreram na sede do concelho onde nasci, Ponte de Lima, e nos seus inesquecíveis arredores. Nos tempos livres, que ocupei quase sempre nos estudos e nas actividades culturais, deliciava-me a ouvir música, de que sempre fui apreciador, ainda que mau executante, e, nesses tempos em que não abundavam outros géneros de orquestras, dei comigo, por vezes, a apreciar esta ou aquela banda de música, nos mais desvairados sítios. Foi assim que me tornei amigo de Domingos Matos, ourives com estabelecimento na rua do Souto (agora nas competentes mãos do seu filho César), a quem não escapava uma única banda de música, que tivesse algum prestígio, fosse no coração da nossa vila ou no adro de um santuário ou de uma capela, em dia de festa, desde que ao local tivesse facilidades de acesso, o que na época não era assim tão fácil. Incipiente condutor de automóvel - nessa altura o número de tais veículos contava-se na sede do concelho pelos dedos da mão  ̶ , deu-me uma ou outra vez a honra da sua companhia.
     Certa vez, demos uma volta por Vigo e, pelo fim da tarde, fomos ter a Gondomar, nas proximidades de Baiona, onde, numa animada romaria popular actuava a Banda de Monção, regida pelo competente maestro e compositor Miguel Oliveira. Ficou este radiante ao saber que tinha dois limianos a escutá-lo e no intervalo apresentou-nos à comissão de festas como membros ̶  presidente e secretário ̶ da direcção da banda! Surpreendidos ̶ na primeira oportunidade, explicou-nos, em rápido à parte ser essa a razão da inesperada apresentação ̶ fomos logo convidados, sem direito a escusa, para jantar com o maestro e a comissão de festas. Depois do aprazível jantar, ouvimos de novo a actuação da banda e regressamos os dois, numa penosa viagem através de uma estrada de montanha inteiramente desconhecida, no meio do mais intenso nevoeiro, se não eram nuvens de baixa altitude, a tardias horas da noite...
Foi também por intermédio do amigo ourives que conheci o tenente coronel Amílcar Morais, que, além de ser exímio compositor e maestro  ̶  entre outras, dirigiu durante dez anos a Orquestra Ligeira do Exércitoera um acendrado amigo de Ponte de Lima. Domingos Matos confessou-me, em dada altura, que um dos maiores desejos de Amílcar Morais era o de compor um Hino a Ponte de Lima. Concordei que era uma bela ideia e que se devia entusiasmar o maestro a concretizá-la...
Um belo dia, Domingos Matos veio ter comigo: o compositor queria avançar com a obra, mas... faltava a letra para o Hino. Tinham conversado os dois, leram até poesias que eu tinha publicado no jornal, e propunham que fosse eu a fazer os versos. Fiquei engasgado, não disse que sim nem que não, mas que ia pensar no assunto, e que de qualquer modo não iria ser por falta da letra que Ponte de Lima deixaria de ter o seu hino... Pelo caminho fui pensando no assunto, mas não me considerava digno de fazer a letra para o Hino da minha terra. Se eu fosse um António Feijó... E, então, conforme seguia pela estrada, aparecia-me cada vez mais claro que o refrão ou a parte fixa do hino tinham de ser aquelas duas quadras do livro Ilha dos Amores, colocadas a um e outro lado do seu busto no monumento que lhe foi dedicado na vila de Ponte de Lima. E se o refrão fosse de António Feijó, os restantes versos também deviam ser do mesmo autor. As três quadras do poema Inverno que se seguem às duas escolhidas prestavam-se a servir para esse efeito, mas necessitava-se de mais algumas que se adequassem ao hino. Encontramo-las um pouco mais atrás no poema Domingo em Terra Alheia, do mesmo livro Ilha dos Amores. Mas havia algumas dificuldades, sobretudo porque, como sucede com uma grande parte dos poemas de António Feijó, a métrica não era inteiramente regular. Tive de lançar mão do cinzel para fazer uns pequenos arranjos, com o maior respeito possível ao espírito e à letra do nosso grande poeta.
Assim se conta como António Feijó, com quase um século de antecedência, com a nossa pequenaajuda”, escreveu os versos para o Hino a Ponte de Lima, a que se deu o mesmo título do livro de onde foram extraídos – Ilha dos Amores.
 
Em 1980, no Almanaque de Ponte de Lima, publicamo-lo pela primeira vez, na versão com acompanhamento para piano, depois reproduzida no Anunciador das Feiras Novas, em 1987. No Anunciador das Feiras Novas, em 2009, publicámos a partitura original para banda.

A Casa do Concelho de Ponte de Lima publicou recentemente um CD com este cântico de louvor à nossa terra entoado pelo Orfeão Limiano, com acompanhamento da Banda Sinfónica da P. S. P.