Luís Dantas e as "Figuras populares"

Recordando Luís Dantas e as
"Figuras populares de Ponte de Lima"




     Este texto foi escrito para a revista Limiana, onde efectivamente foi publicado. Ao redigi-lo, estava longe de imaginar que o Luís Dantas nos viria a deixar tão depressa, quando muito se esperava ainda da perícia com que sabia, como nenhum outro limiano, praticar a arte da escrita. Para que se torne acessível a mais leitores, aqui o voltamos a publicar, em jeito de modesta mas sentida e sincera homenagem.


     Os últimos dias da Primavera deste excêntrico ano de 2009 colocaram-me nas mãos o livro de Luís Dantas que há muito esperava. Lembrando-me dos tempos em que a maior parte se não todas estas crónicas foram aparecendo na imprensa local, muitas vezes manifestei o meu desejo pessoal de as ver recolhidas num pequeno (neste caso, um grande) livro.
     “Figuras populares de Ponte de Lima” situa-se na galeria de outras obras já clássicas da literatura portuguesa, como Os Simples, de Guerra Junqueiro, Os Pobres, de Raul Brandão, e próximo lhe andam os Humildes de José Caldas e até o Rasto de Sombras de José Rosa de Araújo, e tantos outros, só que, neste caso, nos sentimos mais próximos deste livro porque o autor se deu à tarefa de resgatar do olvido algumas personagens que povoaram o nosso quotidiano.
     Ponte de Lima nasceu, em ambiente propício, de um cruzamento de estradas ̶ a via fluvial e a estrada romana ̶ e foi atravessada com frequência por personagens singulares, que faziam o seu caminho ou nele andavam à deriva, vagabundos e peregrinos, como os bem-aventurados Abdão e Romeu, e andarilhos e santos, como a Rainha Santa Isabel, jograis, almocreves, guerreiros, e toda a casta de gente. Vieram mais ou menos de longe, albergaram-se numa estalagem ou estanciaram à porta da Misericórdia, à espera de um naco de pão, para se alimentarem, ou de bálsamo para tratar uma chaga, e afastaram-se, deixando a sua sombra diluída na poeira dos caminhos,.
     Mas as figuras que Luís Dantas eterniza neste livro não chegaram da distância, mas irromperam na hora, vindos do quase-nada e sempre na sua raia, percorrendo o nosso mundo como seres praticamente insignificantes mas carregados de intenso dramatismo, a darem-nos e a pedirem-nos, com frequência, uma atenção fugidia.
      Do tempo dos meus avós, Lourenço o Preto tornou reviva a velha lenda do Letes: esquecido das suas origens, fez das margens do Lima a sua Pátria e deu-se-lhe com paixão, trabalhando, cultivando a música e ajudando os outros a serem felizes. Mais recente e a seu modo, o Pinta Ratos deixou-se embalar por amor romântico, sem cuidar do ridículo que o fez atravessar a vida ensimesmado e entregue aos seus desenhos.
     Diante dos nossos olhos perpassam o João da Luciana, com as bandas de música a actuar ao som da política…, o Caetano Ferrajola, no meio de uma história de bruxas, e ainda o João da Bomba, o Januário Fazenda, o João da Barca “mestre na arte de ferrador”, o Joaquinzinho, o Sucateiro…
     E de um lance estamos perante o Mário, sofrido mas logo bem humorado, se lhe puxavam pela língua para contar a história de um amor passageiro, que não conseguia relatar a direito, ou o incitavam a cantar o “Rosinha, minha Rosinha”.
     O Guerrinha é acompanhado pelos seu cabeçudos, pelos livros de versos e pelos famigerados “testamentos de Judas”. O Zé Povo aparece eternizado com o episódio que protagonizou na representação dos ”Turcos” de Crasto. E depois vem o Zé Caraitas, cuja filáucia nos primeiros cortejos históricos das Feiras Novas ninguém esquece.
     Seguem-se o São Roque, especialista em identificar galinhas roubadas das capoeiras, o Pai Quim, brasileiro fracassado e estafeta, o Manuel Cauteleiro, enigmático vendedor de lotarias com “direito a farda e boné com chapa dourada”, e ainda o João da Mena, engraxador e gentleman atencioso.
     E não concluiremos a leitura sem evocar o João Nabiça, tão apaixonado executante de instrumentos de percussão na banda de música como apreciador de uma boa tigela de carrascão, bebida nos intervalos; o Zé Ferreiro implacável frequentador do tribunal; o Cachadinha, com tasca do “melhor vinho do mundo” nas feiras e romarias, concertina a tiracolo e versos de pé-quebrado para mimar os fregueses; e o Se Luís o “Gato” da Feitosa, sempre na companhia da sua bicicleta.
     Para terminar, leia-se a comovente história do saudoso José Brandão, que nunca se curou das maleitas causadas pela guerra colonial nem da paixão assolapada que lhe corroeu a alma. Há ainda a crónica dedicada ao Néu Franquinha, e, a encerrar, em tom de justo louvor, uma evocação das inesquecíveis Lavadeiras do Rio Lima.
     Como um bom artista plástico, o autor soube individualizar o traço característico dos seus retratados e fixá-lo no papel em poucas linhas, com pinceladas rápidas e cheias de verve. Ao reler o seu livro, estas figuras reaparecem, salvas do tempo que as arrastara consigo para os meandros do esquecimento, e é como se de novo cruzassem os nossos caminhos.
     Luís Dantas levou-nos a reviver uma época singular da pequena história local, que em grande parte coincide com as décadas centrais do século XX, quando o ritmo da vida se estava a modificar, com algumas incursões num período mais remoto, designadamente quando evoca as típicas figuras do Lourenço Preto e do Pinta Ratos. Manuseando a escrita como Miguel Ângelo manuseava o escopro, dono de uma agilidade expressiva e de uma economia de linguagem verdadeiramente ática, faz destes seres humildes, que aos mais peralvilhos se mostravam desprezíveis, um motivo de simpatia. Porque, mais para além do aprumado recorte literário, estas pequenas crónicas sobressaem pela empatia que o autor consegue estabelecer entre os retratados e os leitores.

António Matos Reis